A PARALISIA E O MONTE DAS ARTES

“Levanta e anda”, com essa simples frase Jesus deixou a todos boquiabertos em Cafarnaum-Israel. Um jovem que agora, ex paralítico, retornava para casa após o encontro com o Mestre, cheio de alegria e completamente curado da ausência de movimentos que sua situação implicava (Mt9. 1-8, Lc5. 17-26, Mc2. 1-12). Outro paralisado pela cegueira estava na beira do caminho próximo a Jericó, mas ao ouvir falar de Cristo, perceber a sua presença e o frenesi da multidão que o acompanhava dispôs-se a gritar e clamar pelo filho de Davi, o Messias prometido nas Escrituras e aguardado por toda a nação. Este encontro transformador gerou não apenas júbilo, mas segundo a Palavra, aquele que passou a enxergar saiu da beira do caminho e seguiu junto ao seu Salvador (Mt20.29-34, Lc18.35-43, Mc10.46-52). Lemos nestes episódios duas pessoas vitimadas pela paralisia, e que após a interferência do Senhor iniciaram movimentos, ações e atitudes.

O jovem paralítico podia não ser paralítico de nascença. Talvez seus quatro amigos participassem do acidente que ocasionou a paralisia ou conviviam com ele quando, porventura, fora acometido de alguma enfermidade degenerativa. Seja qual for o motivo do problema a verdade é que um jovem cheio de amigos e de vida não podia caminhar, nem desfrutar de uma vida plena. Podemos ainda vislumbrar no texto que este rapaz e/ou seus amigos não gozavam de muito prestígio na sociedade em que viviam, haja vista a grande resistência e dificuldade que seus concidadãos lhe proporcionaram para ter acesso àquele que estava realizando curas e sinais por onde andava: o próprio Deus encarnado, o maravilhoso Jesus.

Notamos ainda que ele era extremamente amado no seu círculo de amizade, pois como pode tanta abnegação de seus amigos ao ajudá-lo se não houvessem fortes laços de fraternidade? Essa característica dos quatro amigos foi determinante para o desenrolar da história, além de outras como a perseverança, pró-atividade e fé. O interessante dessa história não está apenas no milagre da cura, mas também no grande contraste dos discursos empreendidos no decorrer dos eventos. É gritante, por exemplo, o contraste entre o discurso religioso dos fariseus e discurso amoroso do Mestre, os pensamentos que passaram na mente do paralítico frente ao perdão que Jesus lhe oferecera, e claro, a comparação que Cristo faz entre o perdão e a paralisia que aquele rapaz sofria.

O quadro de paralisia de um outro personagem citado anteriormente também é muito intrigante. O cego de Jericó, filho de Timeu, sentado a beira do caminho em uma situação deplorável, muito sujo, vestido com trapos e esquecido em um lugar tão frequentado. Podemos imaginar as dores que passavam no coração desse homem, as linhas de pensamento que a situação despertava, a opressão que vivia, o desprezo de seus familiares e crises existenciais que esse ser humano passava ao contemplar o espetáculo dramático que a vida lhe proporcionava. Diante desse quadro, notamos algo similar ao primeiro evento relatado: a ignorância e rejeição das pessoas próximas, mas também a respostas milagrosas do Senhor frente `as demonstrações de fé e também a vitória do amor e da compaixão.

A gênese dos problemas destes dois personagens não foi elucidada em nenhum dos textos bíblicos ficando os agentes causadores na esfera da mera especulação. O motivo talvez seja que o autor não quisesse dar ênfase as reais razões dos casos, já que as causas podem ser as mais variadas possíveis. O ponto principal passa a ser a análise comportamental e psicológicas dos protagonistas frente `a situação de paralisia e a solução encontrada em ambos os casos.

Vivemos em uma época de extrema competitividade e maior valorização do ter e fazer que simplesmente ser e expressar, por isso, podemos encontrar quadros diferentes de um mesmo mal: a paralisia. Nesse sentido, é notório e já bastante divulgado que a depressão é um dos males mais insurgentes em nossa sociedade, provocando estatísticas aterradoras como os casos de suicídio e doenças psicossomáticas como a fibromialgia, síndrome do pânico e transtorno bipolar. Alvos muito frequentes de abalos psíquicos, os artistas nas suas mais diversas expressões, são quase que eletivos destas agressões, visto que sua sensibilidade muitas vezes é mais aguçada e, portanto, mais suscetível aos males que agridem a alma, causando um estado de inércia em suas produções, uma paralisia.

As agressões muitas vezes são provenientes do convívio social que pelas características ambientais têm se tornado inóspito para uma mente sensível. Em um ambiente eclesiástico isso deveria ser bem diferente, já que os valores mencionados na Palavra de Deus sempre remetem ao altruísmo, a misericórdia, ao perdão e a fraternidade. Entretanto em muitas situações esses valores parecem ter se diluído no consciente coletivo de toda a Igreja incluindo liderança, membros e dos colegas de ministério, a ponto de serem minimamente ou quase nunca praticados em sua essência. O resultado não poderia ser outro a não ser ministérios paralisados, pessoas que questionam a fé, a Igreja e a Deus, irmãos estacionados a margem da grande obra de evangelização regional e mundial, vestes de louvor trocadas por vestes de injustiça, dor e agressão, vidas frustradas e seres humanos vivendo excessivamente seus problemas. Mas o nosso Deus vive eternamente e por isso há esperança.

Os relatos bíblicos a respeito dos processos de cura que essas pessoas foram submetidas nos levam a observar que apesar da fé abalada do jovem paralítico, ele aceitou a ajuda de seus perseverantes amigos e Cristo contemplou a fé deles apesar de toda dificuldade que tiveram para chegarem ao Senhor. O amor fraternal desses quatro jovens foi fundamental para a cura do rapaz. Jesus ainda nos dá uma dica a respeito do primeiro problema que o jovem tinha: o pecado. O pecado (provável causa) e a culpa deviam estar assolando aquela vida e a primeira atitude de Cristo frente ao rapaz foi de perdoá-lo. Sendo assim, precisamos ajudar nossos conservos a encontrar primeiramente o refrigério e a paz do perdão do Senhor (devemos ser imitadores de Cristo), mesmo que soframos críticas e acusações precisamos fortalecer aqueles que caíram e talvez assim participar do maior milagre, que é um coração arrependido e então iniciar o processo revolucionário de cura da paralisia.

Depois do perdão imagino a mente daquele jovem divagando “como este homem sabia dos meus pecados e mazelas e conseguiu me perdoar?”, acredito que ele estava tão feliz que a paralisia já não era tão importante, tanto que Cristo não questionou os seus pensamentos, mas sim os dos fariseus. Acredito que naquela hora o que antes era dúvida para aquele jovem havia se tornado certeza , o homem que o perdoara era Deus. Finalmente após o enfrentamento de todas as resistências, o Cristo simplesmente pediu para ele se levantar pegar a sua cama e sair. O movimento do rapaz dizia tudo, Ele havia encontrado a salvação, a cura e a paz.

Já no relato de Bartimeu, uma grande multidão seguia a Jesus quando ele estava prestes a entrar na cidade de Jericó, e em um canto da estrada lá estava Bartimeu parado, só e infeliz. O seu problema não era a falta de fé na Palavra de Deus, visto que conhecia a promessa da vinda do Filho de Davi, mas sim a falta de credibilidade das pessoas para com ele, sua mente sofria grave ataques de rejeição e revolta, o que resultou em um estado de paralisia a beira do caminho, mendicância, sujeira e rejeição.

Naquele lugarzinho, Bartimeu já havia se acostumado com o vai e vem de várias pessoas, e era nesse momento que ele ganhava a sua sobrevivência, coberto por uma capa suja e em um ambiente onde sua comunicação era pouco tolerada e pouco compreendida, ele sobrevivia apenas dos restos. Traçando um paralelo com a convivência e sobrevivência de alguns irmãos artistas ou não no âmbito da igreja, notamos que Bartimeu têm muitas coisas em comum: a rejeição sofrida por alguns grupos de louvor menos expressivos, seja eles de música ou dança, parece ser algo comum nas igrejas de grande porte, o não reconhecimento de alguns ministros pelas suas características físicas, sociais ou até mesmo comportamentais é algo também bastante comum, o espaço diminuto de ministração, a conceituação equivocada da dança ou qualquer outra arte como alegoria e não como instrumento profético, além do sufocamento sofrido por alguns irmãos que têm pouco relacionamento dentro das instituições eclesiásticas entre outros problemas, têm nos feito perder o convívio, a riqueza e a sabedoria de Cristo expressa na vida dos pequeninos de Deus.

Com isso estamos deixando de ser abençoados e de experimentar as surpreendentes e maravilhosas manifestações do Senhor, resultando em confusão no conceito de fraternidade , família e corpo (lembrem-se: Deus usa os que não são para confundir os que são). O resultado não podia ser outro senão ministros e ministérios paralisados contemplando as suas dores nos cantos da igreja , sujando suas vestes que antes eram de louvor com pecados e murmurações e revestidos por uma capa de religiosidade perdendo a cada dia o anseio pelo avivamento e pelo poder de Deus. É necessário reconhecer sua incapacidade e seus problemas e clamar pelo socorro ao Filho de Davi, afinal hoje, Ele não está passando no caminho. Ele está contigo, “perto está o Senhor”, diz a Palavra.

Precisamos apesar da cegueira provocada pela competição que as ansiedades e frustrações incitam, perceber onde Deus está querendo que passemos, o que Ele quer que façamos ou se simplesmente se Ele quer apenas que paremos e O contemplemos. Enfim, só se sai desse tipo de paralisia crendo que é possível ter intimidade, acesso a Deus, que Ele se preocupa com você e não medir esforços para encontrá-lO, também é necessário enfrentar todas as resistências para alcançá-lO. Ao conseguir isso, prepare-se! O Altíssimo pode te perguntar: “O que queres que te faça?” (Mc10.51a), e qualquer coisa que você responder tenha certeza que o seu movimento será seguir o Mestre bem de perto, feliz e enxergando o principal, a Glória de Deus.

Acabamos de refletir a respeito de quadros de paralisia que foram revertidos pela presença e manifestação da glória de Deus. Acredito que todos têm áreas que podem estar paralisadas em suas vidas, sejam elas de qualquer natureza, mas também acredito que a Palavra de Deus é viva e eficaz e opera em favor daqueles que amam o Senhor, da mesma forma que operou na vida de tantas pessoas. Especificamente àqueles que utilizam das artes para servir a Deus e que se encontram de alguma maneira em sofrimento ou passando por qualquer tipo de situação que tem paralisado seus processos criativos, sua alegria de ministrar ao coração de Deus ou até mesmo de se expressar livremente através de sua arte, creia que Deus anseia ajudá-los.

Por isso não meçam esforços, clamem por Ele! Deixem ser conduzidos à Sua presença mesmo que a fé esteja um pouco vacilante e finalmente ouçam-no. Suas Palavras são bem mais do que cura: são vida para quem as ouve. Tenho certeza que o monte em que vocês estão, o monte das artes, será sacudido. Você terá sua fé fortalecida e então poderá parafrasear o Mestre: “em verdade vos afirmo, se alguém disser a este monte: ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele” (Marcos 11.23).

Podemos então dizer pela fé : Monte das Artes, MOVA-SE!!ADORE!!!.

Breno Cabral

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